Caio Mileto é membro fundador da igreja batista zona norte, formado em comunicação social e escreve sobre a relação do cristão e a sociedade secular.

2016 Tempo de Multiplicação

 

TODOS TEMOS PRECONCEITO. E NÃO HÁ NADA DE ERRADO NISSO.

 

     Não há nada mais condenável nesta sociedade do “politicamente correto” do que o preconceito. Pior ainda é admitir o próprio preconceito. É evidente que o preconceito aos mais diversos assuntos existe. E o que estou afirmando desde o título deste artigo é, talvez, a mais odiosa das declarações. Todos temos preconceito. Este é um dado da existência humana. E tudo bem! Mas como ter tanta certeza assim? E por que isso não incomoda como dizem? Pra responder a isto, primeiro temos que entender o que é o preconceito, sua natureza e sua relação com o “conceito”. A partir daí, analisaremos as limitações humanas com relação ao saber e a apreensão do mundo em vista de aceitar não só que todos temos preconceitos, mas que ele é um elemento necessário e indissociável da existência humana. Para finalmente, então, entendermos se como nós, Deus é ou não “preconceituoso”.

 

      Antes de mais nada, devemos voltar nossa atenção a própria formação da palavra preconceito. Isto irá nos auxiliar bastante. Pré+conceito. Do que temos que o preconceito, é um conceito prévio sobre algo, seja lá o que for. Logo, temos que nos atinar ao significado de “conceito”. Existem várias explicações para o que seja “conceito” no dicionário. Das quais, para o nosso presente estudo, prefiro (dicionário Michaelis): “Aquilo que o espírito concebe ou entende; ideia; noção.” E: “Termo que designa uma classe de fenômenos observados ou observáveis.” Resumindo: O “conceito” é uma categorização de pensamento a respeito de algo, baseado no sua observação criteriosa. Se já sabemos o que é conceito, entender o preconceito fica mais fácil. Preconceito é uma categorização de pensamento que existe SEM BASE em observação, ou fundamentada em observação rarefeita, malfeita ou sem critério. O que estou dizendo é que o conceito está intimamente ligado ao conhecimento humano. Formar conceitos válidos é uma difícil tarefa que requer estudo, preparação, análise e informação. Ao passo que o preconceito é o substituto do conceito quando estes elementos anteriormente citados não se fazem suficientemente presentes.

 

      Assumindo a existência da relação intrínseca entre conceito e conhecimento, partimos para a próxima questão da nossa análise: Qual é o limite do conhecimento humano? E qual o limite de sua capacidade intelectual? Ora, sabemos que o homem é limitado. Não apenas no seu intelecto, mas também pelo tempo. Tempo de vida. Assim é obviamente impossível para homem conhecer todas as coisas que se há para conhecer. Ainda mais, conhecer em profundidade absoluta; e, acrescento, com perfeição. E ainda que o homem tivesse todo o tempo do mundo para conhecer e observar tudo o que se há para conhecer e observar, no segundo seguinte a que se propusesse a iniciar tal hercúlia tarefa, já haveria conhecimentos novos nascendo  em uma profusão inimaginável. Ou seja: Nada menos que onisciência seria requerida de qualquer um que, hipoteticamente, intentasse tal feito. Para agravar ainda mais a questão, temos de afirmar que o conhecimento do homem não é só escasso, ele também é imperfeito. A cognição humana não é uma entidade perfeitamente ajustada. Tanto isso é verdade que para um mesmo problema proposto a várias pessoas, certamente teríamos várias propostas de soluções. Para cada proposição ou dado da realidade que lançamos sobre  pensamentos alheios temos diferentes expressões do seu efeito. Se nossa cognição fosse um sistema perfeitamente ajustado, para um dado conjunto de problemas e dados que fosse inserido como “input” teríamos sempre o exatíssimo mesmo “output”. O resultado ótimo. Também seria verdade dizer, que jamais cometeríamos erros ou enganos intelectuais de qualquer espécie. Vemos, portanto, que isto claramente não se verifica na realidade concreta. De modo que podemos vaticinar que o conhecimento de cada indivíduo humano é não só escasso, como também é imperfeita sua capacidade intelectual e de raciocínio. O quão escasso é o conhecimento e quão imperfeita é a capacidade intelectual variará de pessoa para pessoa. Entretanto, estas são características inescapáveis do ser humano. Em algum grau, somos todos apedeutas mentecaptos.

 

      Acrescentando agora o elemento preconceito na nossa equação, e, baseados nas considerações acima suscitadas, já podemos concluir que o hipotético homem sem preconceitos seria aquele que conhecesse TODAS as coisas, tivesse uma PERFEITA CAPACIDADE INTELECTUAL e se APROFUNDASSE em cada linha de cada nota de rodapé de cada tópico de cada matéria e disciplina de conhecimento até seu limite abissal. Para isso, precisaria de tempo infinito ou mesmo NÃO SER LIMITADO PELO TEMPO. Sabemos que nenhuma dessas possibilidades se encontra no horizonte humano. No que nos resta a conclusão de SOMOS TODOS PRECONCEITUOSOS, seja com aquilo que não conhecemos, seja com aquilo que conhecemos parcamente, ou seja com aquilo que, pela nossa limitação cognitiva, não entendemos.

 

     O mais interessante, entretanto, não é o fato de sermos todos preconceituosos, mas sim que o preconceito é, em si, uma ferramenta bastante útil no nosso cotidiano. Todos os dias, nos deparamos com coisas que não entendemos, não conhecemos, ignoramos. A realidade sempre nos alcança com a sua complexidade brutal. Ela nos impõe tomarmos decisões, fazer escolhas, direcionar caminhos, etc.. Mesmo quando não temos todas as informações, conhecimento necessário, e tampouco a capacidade de raciocínio adequada para levarmos tudo isso a cabo. Temos que é impossível conceituar tudo que existe em busca de decisões perfeitamente racionais de resultados ótimos. No entanto, o mundo não para de girar, e continua a nos provocar a tomada de ações. E precisamente aí que PRECISAMOS dos nossos preconceitos. Retomando que foi dito anteriormente o preconceito é o substituto do conceito, quando simplesmente não temos como formá-lo por falta de qualquer dos seus elementos constituintes. Desta forma, são nossos preconceitos que nos auxiliam todos os dias a conduzirmos nossas vidas da melhor maneira que na nossa existência limitada é possível.

 

     Os preconceitos, como vimos, são importantes e úteis formas de categorização de pensamento. Mas de onde eles surgem? Entendo que, visto que o preconceito é inerentemente humano, ele só pode surgir de duas fontes: o indivíduo ou a sociedade. Sendo, creio, impossível determinar com precisão onde cada preconceito surge, em vista dos permanentes intercâmbios mútuos de informações entre indivíduos e suas respectivas sociedades. Entretanto, para efeitos didáticos, podemos associar a experiência comparada como uma fonte de preconceitos mais próxima dos indivíduos, enquanto a cultura, a história e a tradição brotando da sociedade.

 

      A experiência comparada é quando temos algum conhecimento sobre algo próximo do objeto da realidade que se nos apresenta. Quando este pedaço da existência nos obriga a tomar uma decisão ou realizar uma escolha, por exemplo, buscamos nas nossas experiências pessoais aquilo que seria o mais próximo da situação em questão. Assim, com base neste conhecimento escasso, categorizamos a realidade apresentada por mera aproximação com aquilo que julgamos conhecer melhor.

 

      Outro importante contributo aos nossos preconceitos é a sociedade. Embora não nos seja possível conhecer de todos os assuntos que são apresentados a nós, em algum ponto da sociedade, em algum lugar da história esse conhecimento (conceito) deve existir (a nãos ser talvez em caso de novíssimas áreas dos conhecimento que ainda estão nas fases de formulação de hipóteses e não de conceituação, mas estas, não creio que são passíveis de alcançar o cotidiano do homem médio). Contudo, a existência de conceitos elaboradíssimos sobre dados da realidade sempre estará restrita a pequenos círculos de estudiosos dos assuntos em questão. De modo que o que perpassa ao resto da sociedade, a todos aqueles que não se debruçam sobre a tal matéria específica, é uma caricatura simplória. E é esta que está acessível através da tradição, da cultura, da história e dos estereótipos. Podem, com efeito, ser categorizações de pensamento limitadas, mas nos servem como guia de orientação cotidiana. Podemos sempre recorrer a cultura, a tradição, a história quando uma situação que não conhecemos bem nos demanda um “conceito”, uma decisão, um pensamento ou ideia. Aí, podemos responder com um preconceito socialmente desenvolvido, testado pela cultura e pelo tempo, e portanto, aceitável. Isso faz com que introjetemos os principais preconceitos presentes nas sociedades para todos os assuntos que não dominamos e não queremos (por qualquer razão) dominar. Nos permite dar respostas aos “inputs” da vida mesmo quando o que sabemos sobre a questão é zero ou próximo de zero. O preconceito, portanto, não só é inexorável, como também imensamente útil!

 

     E Deus? Sofre de preconceito? Ora, vimos que as características que induzem ao preconceito são: a escassez de conhecimento; a imperfeição do conhecimento; a imperfeição cognitiva; e limitação do tempo. Sabemos pela Palavra revelada que Deus é onisciente, o que significa que SABE TUDO e com PERFEIÇÃO  absoluta. Deus nos garante que seus pensamento e caminhos são “mais altos que os nossos” (Isaías: 55.9) em que inferimos para a presente análise que sua cognição é NO MÍNIMO perfeita (embora possamos dizer também que é supra-humana, fora de qualquer enquadramento passível de entendimento pelo homem). Deus é também ETERNO, o que nos remete a questão do tempo. Deus não está sujeito ao tempo. Ele é. Ele é antes, durante, e até mesmo fora do tempo. Podemos entender o tempo, inclusive, como Sua criação. Isto está claro na Bíblia que está repleta de referências a esse tocante, entre as quais destaco: “Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia.” 2 Pedro 3:8 Deus simplesmente não é um SER limitado como o somos nós, humanos. Ele tudo sabe, tudo conhece, é perfeito em todos os Seus atributos e, portanto, não precisa de artimanhas intelectuais para interpretar a realidade como fazemos nós através dos nossos preconceitos. Deus não é preconceituoso. Nós somos. E ainda bem que Deus nos criou assim. Caso contrário, o peso da realidade sobre os nossos ombros seria de tal forma massacrante que impossibilitaria a nossa própria existência enquanto seres racionais.

 

     Se alguém te perguntar algum dia se você é preconceituoso(a) pode dizer: “Sim! Todos somos. E ainda bem!”

 

 

 

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