Caio Mileto é membro fundador da igreja batista zona norte, formado em comunicação social e escreve sobre a relação do cristão e a sociedade secular.

2016 Tempo de Multiplicação

 

 

 

O marxismo tem quase todos os elementos de uma fé religiosa tradicional, e defendo que não é nada além disso mesmo. Citaremos aqui que como qualquer religião, o marxismo tem profetas (ou homens santos), livro sagrado, doutrina, pecado, paraíso e até mesmo denominações! Vejamos cada um desses elementos:

 

     PROFETAS: O marxismo se inicia com Karl Marx e seu fiel escudeiro Engels. São os primeiros a tentar passar um verniz científico aos já conhecidos pensamentos socialistas utópicos de alguns que são considerados seus predecessores. Marx escreve uma vasta literatura, não muito diferente do que descrevemos no primeiro parágrafo deste texto. Ele é considerado um ser iluminado, de clarividência ímpar ao, supostamente, enxergar certos padrões e realidades na sociedade com suas descrições minuciosas que, a qualquer desavisado, soavam verdadeiramente bastante convincentes. Ele é o fundador da doutrina. Marx está para o marxismo (socialismo / comunismo) como Moisés está para o judaísmo. Pois, em ambos os casos, são eles que lanças as bases da fé. As regras e dogmas. Os fundamentos que futuramente se desenvolveram através de vários outros profetas menores que usarão as referências originais.

 Para continuarmos a comparação, se Marx é Moisés, Engels seriam como Arão. Um ajudante fiel. Mas de relativa menor relevância.

 

     LIVRO SAGRADO: Como os cristãos têm a Bíblia, os judeus a Torá, e os muçulmanos o Corão, os marxistas têm “O capital”. A obra marxista mais importante. Sem “O Capital” não existiria marxismo. Evidentemente escrita pelo profeta mor Karl Marx. Lá estão contidas todas as principais doutrinas e dogmas em que os marxistas depositam sua fé. E a partir dele surgiram muitos outros livros para explicar e interpretar sua “teologia”. Livros menores, porém também importante, que gravitam a órbita de “O Capital”.

 

     DOUTRINA: A doutrina é um modo de interpretar a realidade. E todas as religiões têm isso. Nós cristãos por exemplo, entendemos que há um mundo espiritual, que há somente um Deus todo-poderoso. Que somos salvos pelo sacrifício de cristo, etc. Os judeus que são um povo escolhido, por exemplo. Os marxistas não ficam atrás. Possuem uma série de doutrinas de interpretação do mundo. Seja da economia, ou do homem e das suas relações com a sociedade. Algumas das mais famosas são:

 A mais-valia, doutrina que diz que o empresário (chamado na cosmologia marxista de burguês) necessariamente explora o trabalhador, retirando-lhe parte do valor produzido por ele durante o trabalho na forma de lucro. E mesmo que a teoria do valor subjetivo tenha superado essa visão, os marxista continuam a acreditar nela. Um dogma.

 O materialismo-histórico e dialético é outro conceito marxista, este inclusive bastante esotérico, que, a grosso modo, diz que as sociedades estão destinadas a certas coisas dados seus avanços materiais. Assim, a história seria uma evolução contínua e relativamente previsível. Como estações de uma linha de trem. Talvez com algumas curvas e atrasos, mas sempre chegando ao lugar determinado. Nos seus delírios, Marx profetizava que a sociedade pós-capitalista se tornaria socialista e depois comunista. Entretanto a história mostrou que os experimentos do socialismo real (impostos por forças revolucionárias sanguinárias e não fruto de uma evolução social espontânea) foram os mais fracassados da história. E hoje quase todos os países que um dia adotaram o socialismo retornaram a alguma forma de capitalismo. E aqueles que ainda resistem, legam ao povo a mais absoluta miséria, sem falar na supressão quase irrestrita de liberdades. Provando cabalmente o erro do profeta Marx.

 Vê-se portanto que esta é uma visão claramente fantasiosa do ponto de vista da ciência, pois ignora as decisões, preferências e ações de milhões de agentes individuais, sem falar da dos governos. Ao contrário do que esta doutrina possa salientar, é muito fácil perceber que a história não é um caminho traçado. Mas um conjunto de decisões individuais e suas respectivas consequências que sob uma complexidade brutal de suas imbricações são absolutamente imprevisíveis. A não ser que se assuma, como nós cristãos, uma fé. Não uma ciência. Que no nosso caso é o destino já preparado por Deus para a humanidade. A diferença entre nós e os marxistas é que não pretendemos ser científicos ao fazer nossas alegações. Apenas enunciamos uma verdade revelada e não “descoberta” por nossos próprios esforços humanos. Somos honestos.

 A luta de classes é talvez a mais conhecida das doutrinas marxistas. Derivando sua visão de mundo do materialismo histórico dialético, acreditam que são as condições materiais que determinam os interesses das pessoas. Desta forma, em cada classe social os indivíduos, subordinados a condições materiais semelhantes, teriam os mesmos interesses a defender. Naturalmente envolvendo a melhora (ou manutenção no caso das “elites burguesas”) de suas condições materiais. Ignoram entretanto que cada pessoa pode ter metas diferentes na vida, independente da classe. E que a satisfação material é somente um dos anseios humanos. Algumas pessoas se satisfazem com mais dinheiro, outras com mais conhecimento, outras em ajudar o próximo, outras um isolamento da sociedade, e outras simplesmente já estão satisfeitas com o que têm e não tem interesse de lutar por nada além disso. Esta é provavelmente a doutrina mais perniciosa de todas, pois achata a diversidade humana a poucos coletivos identificáveis. Ademais, busca uma igualdade excessiva, dado que cada indivíduo é diferente do outro em praticamente quase todos os aspectos que se possa pensar da existência humana. E pior, muitos se veem insuflados a defenderem ideais de classe, resultando numa verdadeira luta de classes. Não a que Marx descrevera já existir, mas uma causada exatamente pela penetração de suas ideias no conjunto da sociedade. E isto causa todo tipo de instabilidade social.

 

     PECADO: Toda religião de alguma forma limita o comportamento de seus fiéis. São princípios morais e éticos que orientam ao que seja certo e errado, bom e mau. Nas principais religiões monoteístas do mundo, chamamos isso de pecado. E o marxismo, como religião que é, não foge à regra. Para eles, o lucro é pecado já que sustentam que ele só pode ser obtido por meio de uma exploração de um homem para com outro homem. Portanto o mero fato de ser rico, também é uma condição pecaminosa. Possuir um pensamento próprio (e discordante) também é pecado, visto que marxistas são igualitaristas e coletivistas. Isto significa que buscam a igualdade através da consciência de classes (coletivo) e para que as pessoas sejam iguais é necessário obliterar qualquer traço de individualidade dissonante com a causa.

 

     PARAÍSO: É a recompensa vindoura. Quando todas as profecias houverem sido cumpridas e o ser humano finalmente viva em paz e gozo absolutos. Parece que estou me referindo ao céu judaico-cristão, não é mesmo? Bom... então leia abaixo o trecho do profeta Marx sobre seu paraíso:

 

“Na fase superior da sociedade comunista, quando houver desapare-cido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandei-ras: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas ne-cessidades.” Karl Marx - Crítica ao Programa de Gotha

 

 

    Deparar-se com tal trecho na obra de Marx faz parecer que ansiar por uma terra que “mana lei-te e mel” é nada mais que uma brincadeira de criança. Nem mesmo o paraíso judaico-cristão é tão ricamente descrito. E se compararmos às poucas virgens que aguardam os mártires mulçumanos, a recompensa marxista parecerá para muitos ainda mais atrativo.

Não se surpreendam com este extrato da obra de Marx. Acreditem, as promessas messiânicas de um paraíso vindouro são abundantes em seus escritos. E é exatamente neste galardão que se afer-ram seus fiéis, na luta, inclusive pelas vias de fato, do marxismo / socialismo / comunismo.

 

    DENOMINAÇÕES: Se os mulçumanos se dividem em xiitas, sunitas, alauítas, etc.; e os cris-tãos em católicos, protestantes, ortodoxos, etc.; os marxistas não ficam por menos. Com o passar das gerações os marxistas se subdividiram em vários grupos que em comum têm seu profeta-mor, Marx, mas que podem diferenciar-se em termos de estratégia revolucionária, métodos de “luta”, interpretação dos “textos sagrados” ou na fidelidade aos manuscritos originais. Quanto a isto, não há diferença sig-nificativa entre o que ocorre nas religiões. Tomemos como exemplo a diferenciação entre as denomi-nações evangélicas.  Algumas igrejas procuram atrair pessoas para dentro dos seus templos enquanto outras enfatizam que seus membros preguem fora de seus muros. Tratam-se de estratégias e métodos diferentes. Com relação à interpretação, os exemplos são fartos. Há calvinistas vs. arminianos; ceias livres, restritas ou ultrarrestritas; pentecostais vs. tradicionais; dispensacionalistas vs. cessacionistas; e a lista nunca acaba. Se voltarmos nossa atenção à fidelidade aos textos originais, também veremos que várias denominações, além de correntes teológicas, veem a Bíblia de maneira distinta, alguns são mais “fundamentalistas” (no bom sentido do termo) e creem que o que lá está escrito é verdade e ponto, até os que relativizam os textos, descrendo de certos fatos os rotulando de lendas ou meras alegorias pe-dagógicas.

O marxismo não é diferente, há o leninismo, o stalinismo, o maoísmo, o trotskismo, o recente bolivarianismo, sem falar nos moderados sociais-democratas, estes últimos talvez os mais moderados, que, embora socialistas, não abrem mão da democracia e de um conjunto mínimo de liberdades. Cada um tem suas características próprias, mas que de certa forma mantêm uma relação com o fundador original da religião, Marx.

 

    TEMPLOS: Outra característica religiosa do marxismo é o templo. A maioria das religiões es-tabelece templos para que possam se reunir os seguidores. Evidentemente que isto varia em cada reli-gião, alguns são mais formais, outros menos. Como podemos notar a diferença entre uma basílica e um lar recebendo um culto. Mas é fato que em qualquer religião há reuniões mais ou menos regulares em que aqueles que partilham da mesma fé podem se apoiar mutuamente, discutir, traçar ações e até confraternizar. O mesmo acontece com o marxismo. Ali, as igrejas, mesquitas, sinagogas e terreiros são substituídos por grêmios, partidos políticos, sindicatos, e movimentos sociais dos mais diversas como os sem-terra, o sem-teto, marchas da maconha, das vadias, LGBT, Negro, etc.. Em cada caso há um maior ou menor grau de penetração dos ideais socialistas. E muitas vezes este são segmentados de acordo com o interesse específico do movimento em questão. Da mesmo forma como poderíamos fazer em uma igreja qualquer estabelecendo um culto jovem, infantil ou um encontro de casais, por exemplo. Ou ainda, como fazem muitas igrejas: culto dos empresários, culto de cura, culto de busca pelo Espírito Santo, culto de libertação...

 

    Toda religião tem suas peculiaridades, e o marxismo, como tal, também. Se pensarmos em um Deus, ou mesmo “deuses” sobrenaturais e superpoderosos (para não dizer Todo-poderoso como o judaico-cristão) então temos que assumir que falta ao marxismo uma figura assim. É uma religião sem Deus. Por outro lado, se trabalhamos com a acepção que deus “é tudo aquilo que se adora”, então o marxismo não é em nada diferente de qualquer outra religião visto que seus fiéis adoram o seu funda-dor, e suas respectivas organizações (“templos”). Sob este ponto de vista, suas particularidades resi-dem apenas na originalidade de suas fábulas fantasiosas sobre a realidade.

Termino recordando ao cristão que fomos instruídos pelo próprio Cristo a adorarmos somente um Deus. E por seus apóstolos que devemos ter somente uma fé e não é possível compatibilizar com a nossa, qualquer fé ou dedicação a outro ideal religioso.

 

    Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Ma-mom.

Lucas 16:13

 

    Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. 1 Coríntios 10:21

 

    Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados,

Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos ou-tros em amor,

Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.

Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação;

Um só Senhor, uma só fé, um só batismo;

Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós.

 

Efésios 4:1-6

 

    Portanto irmãos, não nos desviemos da fé por qualquer outra que tenha um lustre de ideologia, política ou filosofia. Todos os ramos das ciências humanas e sociais podem e são muito úteis à nossa vida, mas estejamos atentos ao que parece e não é. Ao lobo em pele de cordeiro. O marxismo não passa de mais uma falsa religião e portanto incompatível com a fé cristã.

 

 

 

     Imagine que um dia você acorda resolve escrever o que pensa do mundo, da sociedade e da política. Tendo estudado muito, você está convencido que tem algo a dizer e a ensinar. Acredita piamente que pode ajudar a mudar o mundo para melhor. Você imagina o mundo como deveria ser segundo seus próprios valores e descreve uma nova sociedade fazendo reflexões e previsões para a história da humanidade. Constrói uma verdadeira teoria intrincada a esse respeito. Publica livros, ideias, panfletos e termina com muitos discípulos. Entretanto, sem muita demora, vários teóricos econômicos, políticos e sociais identificam incontáveis falhas no seu pensamento. Sua teoria simplesmente não reflete a realidade. Suas previsões são filosoficamente insustentáveis, moralmente atentatórias e economicamente inviáveis. Mas apesar de todos os avisos e críticas, você e seus discípulos insistem em levar este projeto adiante e tentam a todo custo implantar as mudanças propostas no mundo real. Conseguem. E o resultado é, como os críticos já haviam predito, catastróficos! Mas isso não importa. O ideal continua vivo, não obstante o fracasso retumbante que sucedera. Os discípulos continuam a se multiplicar, e suas políticas continuam a ser fartamente recomendadas em busca do tal “mundo melhor”.

 

     A que você chamaria o quadro descrito acima? Ciência? Ou fé?

 

     Isto é exatamente o que acontece com o marxismo, doutrina que apesar de rotundos malogros segue  a fascinar a muitos, inclusive os formuladores de políticas públicas. E o resultado é sempre o mesmo. E a desculpa também. A de que não teriam sido observadas as proposições originais de Karl Marx, o fundador. Nada diferente a uma fé cega e irracional em um mito qualquer, como vamos explorar a seguir.

 

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